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Dra. Sayure Shiramizu, Médica, CRM-SP 145.735

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Reposição hormonal dá câncer de mama? O que os estudos mostram de verdade

Desde 2002, muita mulher deixou de tratar os sintomas da menopausa por medo do câncer de mama. O risco existe, mas ele depende do tipo de hormônio, do tempo de uso e de quem é a mulher. E isso muda a conversa.

Por Dra. Sayure Shiramizu, CRM-SP 145.735 8 de outubro de 2026 5 min de leitura

Em resumo

  • O medo vem do estudo WHI, de 2002, que testou uma combinação específica de hormônios. Nele, o aumento foi de 8 casos de câncer de mama a cada 10 mil mulheres por ano de uso.
  • No mesmo estudo, as mulheres que usaram só estrogênio (porque não tinham útero) tiveram, depois de 20 anos de acompanhamento, menos câncer de mama e menos mortes pela doença do que as que tomaram placebo.
  • O risco não é igual para todo tratamento: muda com o tipo de progestagênio, com o tempo de uso e quase não existe com o estrogênio vaginal em dose baixa.
  • A decisão é individual. Ela pesa a intensidade dos sintomas, a história pessoal e familiar, a mamografia em dia e os outros fatores de risco, como o excesso de gordura corporal.

A pergunta que aparece em quase toda consulta

"Doutora, eu sei que a reposição ajudaria, mas tenho medo de câncer de mama." Ouço essa frase com muita frequência, às vezes de mulheres que estão há anos sem dormir direito, com ondas de calor várias vezes ao dia, e que preferiram aguentar a arriscar.

O medo tem origem e faz sentido. Mas ele foi construído em cima de uma manchete de 2002, e a ciência andou bastante desde então. Outubro Rosa é um bom momento para colocar os números na mesa, com honestidade nos dois sentidos: nem o risco é inventado, nem ele é o mesmo para todas.

De onde veio o medo

Em 2002, o Women's Health Initiative (WHI), um grande estudo americano com mais de 16 mil mulheres entre 50 e 79 anos, foi interrompido antes do previsto. O grupo que tomava estrogênio conjugado com medroxiprogesterona teve mais casos de câncer de mama do que o grupo placebo, e a notícia correu o mundo. Em pouco tempo, milhões de mulheres pararam o tratamento.

O que quase não foi noticiado é o tamanho do aumento. Em números absolutos, foram 8 casos a mais de câncer de mama invasivo a cada 10 mil mulheres por ano de uso. Também pouco se falou que a média de idade das participantes era de 63 anos, muitas já longe da menopausa, e que aquela era uma combinação específica de hormônios, não a reposição hormonal como um todo.

O que o acompanhamento de 20 anos mostrou

O WHI tinha um segundo braço, com mais de 10 mil mulheres que já tinham retirado o útero e por isso podiam usar estrogênio sozinho, sem progestagênio. Essas mulheres continuaram sendo acompanhadas por mais de 20 anos.

O resultado, publicado em 2020, foi o oposto do que a manchete de 2002 fazia esperar: quem usou só estrogênio teve menos câncer de mama do que quem usou placebo, e também menos mortes pela doença. Já no grupo do estrogênio com medroxiprogesterona, o aumento de casos se manteve, mas sem diferença significativa na mortalidade por câncer de mama.

Ou seja: o mesmo estudo que gerou o medo mostra que o efeito depende muito de qual hormônio se usa.

O que muda o risco

A maior análise já feita sobre o tema, publicada no Lancet em 2019, reuniu dados de mais de 100 mil mulheres com câncer de mama em estudos do mundo todo. Ela confirma que o risco existe e ajuda a enxergar o que pesa mais:

  • O tipo de tratamento. A combinação de estrogênio com progestagênio aumenta mais o risco do que o estrogênio isolado. Nessa análise, cinco anos de uso a partir dos 50 anos significariam cerca de um caso a mais a cada 50 usuárias de estrogênio com progestagênio diário, e um a cada 200 usuárias de estrogênio isolado.
  • O tempo de uso. O risco cresce com os anos de tratamento e é pequeno com menos de um ano. Por isso a reposição se reavalia periodicamente, em vez de seguir no automático.
  • O progestagênio escolhido. Numa coorte francesa com mais de 80 mil mulheres, o estrogênio associado à progesterona micronizada não aumentou o risco de câncer de mama, ao contrário das associações com outros progestagênios.
  • A via vaginal em dose baixa. O estrogênio vaginal, usado para ressecamento e sintomas urinários, não se associou a aumento de risco nem na análise do Lancet nem no acompanhamento do WHI.

Nenhum desses pontos elimina o risco. Eles mostram que "reposição hormonal" não é uma coisa só, e que a escolha do esquema faz parte do cuidado.

O outro lado da balança

Discutir o risco da reposição sem olhar o resto da vida da mulher é contar metade da história. O excesso de gordura corporal, por exemplo, tem evidência suficiente, segundo a Agência Internacional de Pesquisa em Câncer, de aumentar o risco de câncer de mama depois da menopausa. Álcool, sedentarismo e histórico familiar também entram na conta.

E do outro lado estão os benefícios, que não são pequenos. A terapia hormonal segue sendo o tratamento mais eficaz para as ondas de calor e os suores noturnos e protege os ossos contra a perda de massa e as fraturas. Para mulheres com menos de 60 anos ou nos primeiros 10 anos da menopausa, sem contraindicações, a diretriz da The Menopause Society considera que a relação entre benefício e risco é favorável.

Como eu conduzo essa decisão

Antes de qualquer prescrição, eu quero saber da história pessoal e familiar de câncer, ver a mamografia em dia e entender o que mais pesa no risco daquela mulher. Depois, conversamos com franqueza sobre o que a reposição pode trazer, o que ela pode custar e quais alternativas existem.

Se a indicação existir, escolho junto com a paciente o tipo de hormônio, a via e a dose, e o acompanhamento inclui a mamografia anual e a reavaliação do tratamento ao longo do tempo. O objetivo não é convencer ninguém a repor hormônio. É que a decisão, para um lado ou para o outro, seja tomada com informação, e não com medo.

Referências

Os estudos abaixo foram consultados na base PubMed. O link leva ao registro original de cada publicação.

  1. Rossouw JE, Anderson GL, Prentice RL, et al.; Writing Group for the Women's Health Initiative Investigators. Risks and benefits of estrogen plus progestin in healthy postmenopausal women: principal results From the Women's Health Initiative randomized controlled trial. JAMA. 2002;288(3):321-333. doi:10.1001/jama.288.3.321 PubMed 12117397
  2. Chlebowski RT, Anderson GL, Aragaki AK, et al. Association of Menopausal Hormone Therapy With Breast Cancer Incidence and Mortality During Long-term Follow-up of the Women's Health Initiative Randomized Clinical Trials. JAMA. 2020;324(4):369-380. doi:10.1001/jama.2020.9482 PubMed 32721007
  3. Collaborative Group on Hormonal Factors in Breast Cancer. Type and timing of menopausal hormone therapy and breast cancer risk: individual participant meta-analysis of the worldwide epidemiological evidence. Lancet. 2019;394(10204):1159-1168. doi:10.1016/S0140-6736(19)31709-X PubMed 31474332
  4. Fournier A, Berrino F, Clavel-Chapelon F. Unequal risks for breast cancer associated with different hormone replacement therapies: results from the E3N cohort study. Breast Cancer Res Treat. 2008;107(1):103-111. doi:10.1007/s10549-007-9523-x PubMed 17333341
  5. Crandall CJ, Hovey KM, Andrews CA, et al. Breast cancer, endometrial cancer, and cardiovascular events in participants who used vaginal estrogen in the Women's Health Initiative Observational Study. Menopause. 2018;25(1):11-20. doi:10.1097/GME.0000000000000956 PubMed 28816933
  6. Lauby-Secretan B, Scoccianti C, Loomis D, et al.; International Agency for Research on Cancer Handbook Working Group. Body Fatness and Cancer: Viewpoint of the IARC Working Group. N Engl J Med. 2016;375(8):794-798. doi:10.1056/NEJMsr1606602 PubMed 27557308
  7. The North American Menopause Society (atual The Menopause Society) The 2022 hormone therapy position statement of The North American Menopause Society. Menopause. 2022;29(7):767-794. doi:10.1097/GME.0000000000002028 PubMed 35797481

Este conteúdo é educativo e não substitui a consulta médica. Nenhum tratamento deve ser iniciado, ajustado ou interrompido sem avaliação individual.

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